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PAÍS DE ALICE
Quarta-feira, Outubro 21, 2009:
O primeiro beijo
O primeiro é sempre assim, a gente nunca esquece. Disso estamos cansados de saber. Não esquecemos o primeiro amor, o primeiro (e, felizmente, o último) cigarro, o primeiro encontro, o primeiro namorado, o primeiro fora, o primeiro (e, felizmente, o último) cigarro, o primeiro carro, o primeiro... e uma lista de coisinhas importantes dessa nossa vidinha tão comum. Mas não esquecemos por quê? A gente costuma lembrar de vez em quando? Sonhar acordado com a língua daquele menino, com a fumaça do cigarro entopindo minhas narinas, com o choro desesperado depois de um "pé na bunda"? Sinceramente, depois que eu "cresci", não me lembro de mais nada. Até que uma bela imagem me apareceu na cabeça hoje cedo. Eu, escondida numa barraca de um acampamento no Rio Araguaia, com medo do menino que queria me beijar. 1991. Eu tinha 12 anos de idade. Um primo não me deixa esquecer. Claro, ele era o vigia. (Bruno, eu te amo!) Depois de uma competição pra ver quem tinha a língua mais comprida, saí correndo pela praia, feito boba (aos 12 anos somos todas bobas), e ele tentando me pegar. ahuauhahauhuahauhauhauhauahua. que ridículo. um filme adolescente, água com açúcar. Ou seria um filme de terror? Na verdade, às vezes, aos 30 anos de idade, me pego escondida na barraca. Ainda são sete horas da noite, longe da hora de ir dormir, e eu estou escondida. Com medo do beijo ou sabe-se lá o quê. Descubro que ainda não dei o primeiro beijo. Aquele, sabe?!!!! Espero ansiosa a chegada do meu marido e quando ele chega (eu quietinha esperando no quarto) ele pula na cama e diz: "To pregado!" - ou liga o computador e diz que tem milhões de coisas pra fazer. Manda um beijinho sem graça e eu fiquei sem meu beijo. Claro que tivemos o primeiro beijo, os beijos apaixonados, os ardentes, os românticos, os silenciosos, os estalados, os... sei lá quantos. bons ou não, eram beijos. No entanto, aguardo o meu primeiro beijo. O beijo que não mais esquecerei, pelo próprio beijo, longe do lugar, do momento, do tempo. Longe dos vigias, das canções, dos movimentos incessantes das línguas. O beijo único. O delírio dos meus pensamentos. E sei que quando eu menos esperar, virá meu eterno namorado, meu marido apaixonado (e sem tempo) e me presenteará com o aquele que nem ele conhecia. E nesse instante a eternidade findará. Um minuto ou mais, uma hora ou menos. Na esperança do relógio parar, num tempo que não exista. E então, escreverei, sem culpa: O meu primeiro beijo!.
Alice Xavier
Um beijo
Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...
Olavo Bilac
Alice Gomes Xavier // 10:04 PM
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